João Bernardo Vieira promete estabilidade e reconciliação nacional nas eleições presidenciais da Guiné-Bissau 2025

João Bernardo Vieira promete estabilidade e reconciliação nacional nas eleições presidenciais da Guiné-Bissau 2025

Em entrevista exclusiva, o candidato defende o fim dos ciclos de instabilidade, aposta na paz e no desenvolvimento sustentável, e apresenta propostas centradas na agricultura, educação, saúde e reforma institucional.

Guiné-Bissau tenta que encontrar o seu rumo

7 Novembro, 2025
A poucas semanas das eleições presidenciais na Guiné-Bissau, João Bernardo Vieira apresenta-se como candidato com uma mensagem clara:

A necessidade de romper com os ciclos de instabilidade política que têm marcado o país. Em entrevista à Raia Diplomática, o candidato sublinha que o futuro da Guiné-Bissau deve assentar na paz, na estabilidade e no desenvolvimento sustentável. Convicto de que “o povo guineense está ciente de tudo isso e acredito que eles não vão querer mais guerras políticas em detrimento do desenvolvimento do país”, João Bernardo Vieira apela à união nacional e à construção de instituições fortes como caminho para consolidar a democracia e garantir melhores condições de vida para todos os guineenses.

A Guiné-Bissau vive mais uma vez um processo eleitoral marcado por tensão e incerteza. Como descreve o atual momento político do país? Como disse e bem, o nosso país está a viver um momento politico marcado de incerteza, visto que estamos prestes a realizar mais uma eleição onde alguns partidos e presumíveis candidatos foram impedidos de participar nela pela alta corte suprema do país. Isso por si só já é um problema que requer uma gestão cuidadosa. Associa-se a este, a um presumível golpe de Estado que os militares denunciaram na semana passada. Portanto, não é de descartar as incertezas que pode vir a assombrar este processo eleitoral.

Dar esperança à Guiné-Bissau

Muitos cidadãos expressam desconfiança nas instituições eleitorais. Que medidas considera fundamentais para garantir um processo transparente e legítimo?

É bom reconhecer que, as nossas instituições que conduzem o processo eleitoral do país estão a funcionar num regime de caducidade que é um vicio grave. Este vicio a priori pode inquinar o processo. Apesar de tudo, o processo eleitoral guineense aparentemente transparece um processo transparente, por ser um processo de rua. Porque começa na rua e termina lá. Uma vez que o seu escrutínio é feito a todos níveis, desde os elementos que compõem as mesas de assembleia de voto, pelos fiscais dos partidos, dos candidatos e até os habitantes locais.

Não é segredo para ninguém que o processo de estabilização de qualquer que seja país, é interno, ou seja, a estabilização da Guiné-Bissau tem que ser os guineenses a trabalharem para isso.

O que o motivou a candidatar-se à presidência num momento tão conturbado da vida política guineense?

Como sabe sou cidadão deste país e vivo intensamente a problemática do meu país em todos níveis, em especial político e social. Ao longo de vários anos o nosso país viveu períodos conturbados de conflitos políticos permanentes que assentou as divisões entre a classe política, bloqueando o processo de estabilização do país rumo ao desenvolvimento. Tal facto requer a intervenção de uma pessoa longe destas guerras intermináveis e comprometido com o futuro deste país. Por isso, quando fui lançado este desafio por um partido politico, não hesitei em aceitá-lo e assumir o mesmo num período difícil e conturbado que estamos a viver. O meu pai dizia-me cito ‶a qualidade de um homem mede-se nas situações difíceis e não nas facilidades‶

As propostas de João Bernardo Vieira

Quais são as principais linhas do seu programa?

A minha vida é caracterizada de ser uma pessoa que vive a margem de conflito, ou seja, sou um homem de paz. Portanto o meu programa de campanha contem três eixos fundamentais: a estabilização do país, a reconciliação dos guineenses e a dinamização de dos setores sociais.

A Guiné-Bissau tem enfrentado grandes desafios em termos de estabilidade política. Que medidas concretas propõe para pôr fim à instabilidade crónica e assegurar a continuidade governativa?

A estabilização deste país, requer envolvimento de todos filhos da Guiné-Bissau espalhado no mundo fora, que inclua a classe política e sociedade civil. Para tal as primeiras medidas a serem tomadas por mim caso for eleito é reativar a Comissão Nacional de Reconciliação que outrora foram suspensos os seus trabalhos. É importante o país organizar uma conferencia nacional de paz e reconciliação como um dos mecanismos que vai permitir o país dar os primeiros passos rumo a estabilização e criar condições para o inicio do processo de reformas profundas do Estado em diferentes setores, nomeadamente da Justiça, defesa e segurança, educação, saúde, etc.
O país enfrenta também graves carências em saúde, educação e infraestruturas. Quais seriam as suas prioridades nestas áreas? Como disse atrás, o meu programa de campanha vai incidir nos setores sociais em que a educação e saúde são as mais destacadas. A titulo de exemplo, o meu segundo dia de campanha foi marcada pela visita dos grandes hospitais do país. Isso para constatar in louco os desafios que os profissionais deste setor são confrontados diariamente. Por outro lado, estamos convictos que não pode pretender mudar a imagem do país pondo de lado as infraestruturas. Precisamos de impulsionar as construções de vias rodoviárias para facilitar a circulação de pessoas e bens em todo canto do país.

Bandeira da Guiné-Bissau (Imagem de CryptoSkylark en Pixabay) Que estratégias defende para diversificar a economia e promover o investimento produtivo? A Guiné-Bissau é um país iminentemente agrícola com grande potencialidade de poder exportar diversos produtos para o mundo fora. Por isso, investir na agricultura é meio caminho para promover o investimento produtivo que pode catapultar o processo de desenvolvimento do país e da economia.

Em busca da estabilidade e da paz

Que papel atribui ao setor privado e à diáspora guineense no desenvolvimento económico do país?

No Estado liberal como nosso, o setor privado é o motor da economia. Por isso, precisamos de redinamizar o setor privado guineense no sentido de ele poder impulsionar a economia. Porque, quando o Estado não pode desempenhar atividade económica que tem que criar um quadro que facilite os privados atuarem em pé de igualdade na produção de riquezas, permitindo o estado retirar a mais valia que é imposto. No que tange a diáspora guineense, sempre jogou um grande papel na nossa economia, através do envio de remessas para os familiares e não só, as suas contribuições na infraestrutura do país, que para nós eles têm que merecer uma atenção especial, aliás eu sou produto de diáspora.

Como pretende criar condições para gerar emprego, sobretudo para os jovens, e reduzir a pobreza estrutural?

O problema de desemprego atualmente é um problema mundial que merece ser resolvido urgentemente para evitar futuras convulsões sociais que o mundo pode vir a enfrentar. Na situação do nosso país em particular, esta situação tem condições para ser resolvido, uma vez que o nosso país para além de ser pequeno em termos de tamanho, ele não é populoso, mas com uma potencialidade enorme em termos de riquezas que a natureza nos deu. Portando, basta dar um click em termos de adoção de políticas que vai incentivar o investimento, imprimir as políticas de controlo e de combate a corrupção, tenho a certeza que vamos poder resolver esta questão num abrir e fechar olhos.

Que papel gostaria que a Guiné-Bissau desempenhasse no contexto regional da África Ocidental? Na CEDEAO, a Guiné-Bissau era o exemplo a seguir em todos vertentes, estabilização politica, económica e social. Portanto precisamos só reconquistar a nossa posição que havíamos ocupado a vários anos que infelizmente viemos a perder com o conflito politico militar de 07 de junho de 1998.

Estar presente nas organizações internacionais

Portugal tem sido um parceiro histórico da Guiné-Bissau. Como imagina a evolução das relações bilaterais entre os dois países num eventual governo liderado por si?

Portugal é e sempre será um país querido pelos guineenses. Temos um passado comum e nenhum país está melhor posicionado do que Portugal para ser o principal interlocutor do nosso país junto dos outros parceiros da União Europeia. Portanto, serão sempre privilegiadas as nossas relações com Portugal a par de outros países da CPLP.

E no contexto da CPLP — quais são as suas prioridades para reforçar a presença e a voz da Guiné-Bissau na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa?

Creio que a Guiné-Bissau está sempre presente e jogou o seu papel como membro nesta comunidade e neste momento, nós é que estamos a presidir a CPLP. O que quer dizer a nossa presença é inquestionável e a nossa voz vai e continuará a ser ouvida nesta comunidade. Como avalia o papel das organizações regionais e continentais — nomeadamente a CEDEAO e a União Africana — no apoio à estabilidade e ao desenvolvimento do país?

Não é segredo para ninguém que o processo de estabilização de qualquer que seja país, é interno, ou seja, a estabilização da Guiné-Bissau tem que ser os guineenses a trabalharem para isso. A história ensinou-nos que a presença de nenhuma organização tanto ela regional, sub-regional ou mundial num determinado país conseguiu estabilizá-lo sem, no entanto, haja vontade dos cidadãos daquele país. Por isso considero que, nós guineense temos a obrigação de trabalhar para estabilizarmos o nosso país, independentemente da presença destas organizações regionais como a CEDEAO na qualidade de parceira. Nesta ordem de ideias, caso for eleito irei reabilitar a Comissão Nacional de Reconciliação.

Dar voz ao povo da Guiné-Bissau

Por que razão os guineenses devem confiar em si para liderar o país neste momento decisivo?

Como já havia dito, sou diferente de outros candidatos, todos eles estão em conflitos encobertos do espirito de revanchismo e qualquer um que ganhar utilizará o poder de Estado para vingar o outro. Eu estou alheio a tudo isso, sou homem de paz, alguém que pode fazer pontes entre as diferentes franjas tanto sociais como políticas.

O povo guineense está ciente de tudo isso e acredito que eles não vão querer mais guerras politicas em detrimento do desenvolvimento do país. Porque basta ver as alianças políticas que foram montadas, conclui-se é um prelúdio de conflitos que pode vir a bloquear o processo de desenvolvimento do país.

Que mensagem gostaria de deixar à juventude guineense, muitas vezes desiludida com a política e sem perspetivas de futuro?

É muito simples, os jovens sempre foram considerados o futuro de qualquer sociedade, comunidade ou país. Portanto eles não têm que desistir. Gostaria de lhes lançar um vibrante apelo para continuarem a sonhar e acreditar que este país tem condições para lhes servir da melhor maneira. Portanto têm que ser resilientes e sobretudo confiarem num projeto de esperança e de estabilidade do país. Porque só assim é que podemos chegar lá.

Redação: Betegb

Fonte:raiadiplomatica

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